sábado, 10 de outubro de 2026

Vorcaro diz que diretor-geral da PF estaria em delação, relata ameaças e afirma que “núcleo do atual governo” não quer que ele fale

Postado em 4 de setembro de 2026
Política

Dono do Banco Master afirma ao STF que Andrei Rodrigues participou de viagens e eventos com ele e diz ter informações sobre pessoas do núcleo de poder que envolveriam “linhas de moralidade” e “ilicitude”

Daniel Vorcaro fez revelações explosivas em depoimento sigiloso prestado à Justiça. O dono do Banco Master afirmou que o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, estaria entre os nomes que poderiam aparecer em uma eventual colaboração premiada e sustentou que pessoas ligadas ao “núcleo do atual governo” teriam interesse em impedir que os fatos que conhece venham a público.

O depoimento foi realizado sob sigilo e com medidas especiais de segurança depois que a defesa de Vorcaro informou ao Supremo Tribunal Federal que ele estaria sofrendo ameaças. A audiência foi conduzida por juiz auxiliar do ministro André Mendonça e teve participação de representante da Procuradoria-Geral da República.

Um dos momentos mais graves ocorre quando Vorcaro cita nominalmente Andrei Rodrigues. Segundo o banqueiro, o diretor-geral da PF teria viajado para eventos com ele, acompanhado da namorada, recebido ingressos e mantido uma relação anterior à deflagração do caso.

“[O] próprio diretor-geral, o Andrei, que viajou para eventos comigo, com namorada, teve ingressos, teve uma relação pretérita a esse caso”, declarou. Questionado pelo juiz se falava de Andrei Rodrigues, Vorcaro confirmou.

A revelação ganha dimensão ainda maior quando o representante do Ministério Público pergunta se essa relação com Andrei passaria pelos fatos que Vorcaro pretendia narrar em sua colaboração.

A resposta foi afirmativa.

Vorcaro disse que sua colaboração, no que diz respeito a pessoas, envolveria integrantes do “núcleo do atual governo” com quem teria desenvolvido relações enquanto tentava se proteger das pressões que, segundo ele, sofria. Na sequência, afirmou que, em alguns desses episódios, teriam sido cruzadas “linhas de moralidade” e “linhas de ilicitude”.

Em outro momento ainda mais direto, a defesa pergunta se Andrei Rodrigues seria um dos nomes mencionados caso Vorcaro pudesse retomar uma delação. Ele responde: “Ele estaria, sim”. Questionado então se acreditava que tentativas anteriores de colaboração não avançaram porque poderia falar do diretor-geral da PF, Vorcaro ampliou a acusação: “Não só ele, como outras pessoas ligadas a um núcleo político que, hoje, efetivamente, existe um interesse político também. Mas sim.”

“Existem pessoas com poder, no núcleo do poder, que não querem que eu fale”

Vorcaro sustenta que haveria resistência dentro do próprio sistema para que os fatos fossem revelados. Em uma das declarações mais contundentes, afirma existir “uma situação de pessoas com poder, no núcleo do poder” que não querem que ele fale e associa a isso a narrativa construída contra ele e sua prisão.

O banqueiro também declarou que relações jurídicas e pessoais que manteve com “pessoas relevantes do atual governo e de instituições”, caso reveladas, poderiam prejudicar pessoas que estariam “do outro lado da mesa”.

Vorcaro ressalva, em diferentes momentos, que não acusa a Polícia Federal como instituição. Alega, porém, que integrantes da corporação estariam direcionando a investigação e fazendo vazamentos seletivos para a imprensa. Segundo ele, a própria PGR e o gabinete judicial estariam sendo conduzidos por uma versão apresentada por membros da PF.

“Vai querer falar do chefe?”

O depoimento contém ainda acusações gravíssimas sobre o período em que Vorcaro esteve sob custódia.

Ele afirma que, depois de demonstrar interesse em colaborar com as autoridades, passou a sofrer intimidações quase diariamente. Em determinado transporte, relata ter ouvido a frase: “Vai querer falar do chefe?”. Vorcaro disse que o transporte era realizado pela Polícia Penal estadual e que, ao chegar ao aeroporto, foi recepcionado pela Polícia Federal.

Em outro deslocamento, afirmou ter ouvido que sua vida “vai virar um inferno” por querer “mexer com os patrões”. Também sustentou que ficou isolado, sem acesso aos advogados, em uma cela cuja luz permanecia ligada 24 horas por dia.

Vorcaro declarou ainda que, durante transporte de helicóptero, ouviu uma ameaça ainda mais explícita. Segundo seu relato, após comentários para que ficasse quieto, um dos integrantes da equipe teria dito: “É mais fácil, de repente, jogar ele daqui”.

O banqueiro afirmou que temeu pela própria vida.

Recados para abandonar colaboração

Segundo Vorcaro, advogados e interlocutores também começaram a transmitir recados de terceiros para que desistisse da colaboração. A mensagem seria de que, se continuasse falando, sua situação e a de sua família poderiam piorar.

Ele afirmou que as intimidações se tornaram “quase diárias” enquanto ainda existia a possibilidade de colaboração e cessaram justamente quando, em suas palavras, a delação foi “enterrada”.

Vorcaro também relatou que sua mãe recebeu e-mails anônimos com ameaças de morte e mensagens dizendo que ele seria morto.

Ao ser questionado sobre quem teria ordenado as intimidações, porém, Vorcaro reconheceu que não recebeu uma indicação direta de mandante. Disse que ninguém afirmou expressamente que determinada pessoa havia ordenado as ameaças e apresentou como sua interpretação a ligação entre as intimidações e os fatos que pretendia revelar.

Vorcaro diz ter provas

O banqueiro afirmou ainda que possui provas dos fatos que pretende revelar e classificou as informações como “irrefutáveis”. Segundo ele, sua intenção é retomar uma colaboração em ambiente que considere seguro.

Vorcaro sustenta que o caso estaria sendo “manipulado e direcionado” para proteger pessoas envolvidas e construir contra ele e sua família uma narrativa que desviaria o foco dos fatos que pretende contar.

A defesa terminou a audiência pedindo formalmente que Vorcaro tenha oportunidade de prestar novo depoimento sobre todos os fatos que afirma conhecer e de iniciar eventual colaboração sob condições de segurança. O pedido foi registrado para apreciação do ministro André Mendonça.

Foto: Banco Master/Divulgação