Fátima recua do Senado, expõe crise com vice e tenta vender desistência como “coragem”
A governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra (PT), anunciou nesta terça-feira (17) que não será candidata ao Senado em 2026. A decisão, que deveria ser estratégica dentro do jogo político, acabou revelando muito mais: um racha interno, fragilidade na articulação e um cenário que desmontou os planos do próprio governo.
Em carta pública, Fátima tenta enquadrar o recuo como um gesto de “coragem” e compromisso com o povo. Mas, na prática, o texto escancara um problema político central: a governadora não conseguiu viabilizar sua própria candidatura.
Plano frustrado e crise dentro do governo
Para disputar o Senado, Fátima precisaria deixar o cargo e transferir o comando do Estado ao vice. O movimento, comum na política, dependia de alinhamento interno — que claramente não aconteceu.
Sem citar nomes, a governadora admite o rompimento:
“O vice rompeu o compromisso firmado em 2022, atendendo a interesses de uma velha elite…”
A declaração expõe uma crise direta dentro da própria base e levanta uma questão inevitável: se não há confiança interna, como sustentar um projeto político mais amplo para 2026?
Discurso ideológico como tentativa de blindagem
Ao longo da carta, Fátima tenta deslocar o foco do problema local para um embate nacional. Fala em “ofensiva da extrema-direita” e na necessidade de manter o PT no Senado.
A estratégia é clara: transformar uma dificuldade política concreta em narrativa ideológica.
Mas, nos bastidores, o que se comenta é que a candidatura ao Senado simplesmente não se sustentou — seja por falta de articulação, seja por ausência de garantias políticas.
Entre o discurso e a realidade
A governadora também aposta em um discurso de legado, citando obras e ações do governo. No entanto, evita mencionar problemas que continuam sendo alvo de críticas, como áreas sensíveis da gestão e desafios estruturais do estado.
Ao afirmar que “não há cargo que valha sua coerência”, Fátima tenta transformar a desistência em escolha moral. Para a oposição, porém, a leitura é outra: trata-se de um recuo forçado diante de um cenário desfavorável.
Isolamento político e sinal de alerta para 2026
O episódio deixa um sinal claro no tabuleiro político do RN: o grupo governista não está tão coeso quanto tenta demonstrar.
A quebra de acordo com o vice, somada à necessidade de permanecer no cargo por falta de viabilidade eleitoral, acende um alerta sobre a capacidade de articulação do governo para as próximas eleições.
Enquanto isso, Fátima tenta reorganizar o discurso, projeta nomes aliados e reforça o alinhamento com o presidente Lula. Mas o desgaste interno já está exposto — e deve ser explorado pela oposição.
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Leia a carta na íntegra
A coragem sempre me acompanhou, desde quando migrei da Paraíba para estudar, até quando renunciei a reeleições, sem falsa modéstia, asseguradas para me lançar a desafios até então impossíveis para alguém de sobrenome comum e do povo. Nunca tive medo da disputa eleitoral pois sempre me coloquei a serviço de um projeto maior de nação e de sociedade, que é maior que minha própria vida.
Coragem para disputar o Senado, em 2014, colocando em xeque a única cadeira que o PT do RN tinha no Congresso Nacional. Coragem para renunciar à metade do mandato de senadora, em 2018, para disputar o governo do estado e assumi-lo em situação crítica e precária. Houve quem dissesse que eu não duraria um semestre na cadeira de governadora.
Agora, tenho coragem também de renunciar a uma disputa que era legítima, esperada, necessária – por tudo que estará em jogo no senado federal a partir de 2027, com a ofensiva da extrema-direita contra a democracia – para seguir defendendo os interesses do povo do Rio Grande do Norte. Esse era o desejo de Lula, do PT e de parte expressiva do eleitorado como já constatado em pesquisas.
O que distingue mulheres e homens dos meninos é a maturidade, a seriedade, a ética e o compromisso público. Nunca me guiei por oportunismo ou interesse próprio. Minha vida sempre esteve a serviço de melhorar a vida do povo e para isso trabalhei como deputada estadual, deputada federal, senadora e governadora.
Não há cargo no senado que valha minha coerência, meus valores, minha honradez e meu compromisso com o Rio Grande do Norte.
Os mais de um milhão de votos que recebemos quando fui reeleita governadora serão honrados por mim até o último dia de mandato. A coragem e, repito, o compromisso, em primeiro lugar com o povo potiguar, me mandam agora ficar e garantir a construção do hospital metropolitano, a duplicação da BR 304, a concretização das obras da transposição do Rio São Francisco. Evitar qualquer retrocesso e garantir novas conquistas.
Eu jamais esquecerei como peguei o Rio Grande do Norte: servidores sem salários, fugas e rebeliões nos presídios, policiais dependendo de doação de cestas básicas. Esse foi o Estado que herdamos e para o qual não temos o direito de retroceder. O RN hoje não deve aos servidores, tem estradas recuperadas, segurança reconhecida e valorizada.
Hoje, no RN, temos o dobro de escolas em tempo integral e profissionalizantes, inclusive uma rede de novos IERNs – o IF potiguar; temos saúde em todas as regiões do estado, dispensando os deslocamentos para Natal para exames e cirurgias; temos novas delegacias da mulher, mulheres sem barreiras para entrar na PM, patrulha Maria da Penha ampliada e um combate firme ao feminicídio.
Temos outro estado, meu querido povo potiguar. E eu tenho um amor imenso por essa terra, por nossa gente, por cada cantinho desse Rio Grande que passou a ter Norte, esperança e um futuro promissor. Esse amor me faz ficar, numa decisão que não é pequena nem qualquer. Não ter vaidade nos ajuda a ter sobriedade mesmo frente às injustiças.
Para viabilizar a candidatura ao Senado, era necessário que o vice assumisse o governo, mas ele rompeu o compromisso firmado em 2022, atendendo a interesses de uma velha elite que nunca aceitou um RN governado pelo povo. São escolhas e motivações que o tempo há de esclarecer e que o impediram de assumir a tarefa mais honrosa que um cidadão pode ter: governar o Estado.
Um movimento articulado para tirar o PT do Senado. Não vão conseguir. Ao longo desses anos, muitas Fátimas se forjaram na luta política e social e seguirão ocupando, cada vez mais, os espaços de poder. Eles tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos sementes. O RN vai florescer com Cadu governador, com o PT no senado, ao lado dos aliados do campo popular e democrático, e com Luis Inácio Lula da Silva presidente!
Fátima Bezerra
Natal, 17 de março de 2026.
