terça-feira, 28 de abril de 2026

Nível de reservatórios sobe, mas cenário de seca persiste no Estado

Postado em 28 de abril de 2026
Política

O aumento recente no volume dos reservatórios do Rio Grande do Norte trouxe alívio parcial após as últimas chuvas, mas ainda não é suficiente para afastar o cenário de seca que atinge grande parte dos municípios. Apesar de alguns mananciais cheios e outros próximos da capacidade máxima, o Estado mantém o decreto de situação de emergência, sustentado por dados técnicos que apontam fragilidade hídrica e impactos persistentes no campo.

De acordo com o relatório do Instituto de Gestão das Águas do RN (Igarn), divulgado nesta segunda-feira (27), as reservas hídricas superficiais somam 2,58 bilhões de metros cúbicos, o equivalente a 48,83% da capacidade total. O percentual representa crescimento em relação ao levantamento anterior, impulsionado pelas chuvas registradas nos últimos dias, mas ainda abaixo do registrado no mesmo período do ano passado. “No ano passado estávamos com 52,56% da capacidade nesta mesma época. Tínhamos 2,8 bilhões de m³ e foi um ano muito ruim. Estamos com 300 milhões de m³ a menos nos 69 reservatórios que a gente monitora”, explica o diretor-presidente do Igarn, José Procópio de Lucena.

Alguns reservatórios até atingiram 100% da capacidade e estão vertendo, como o açude Beldroega, em Paraú. Outros sete também permanecem cheios, além de lagoas importantes para o abastecimento, como Jiqui e Pium. Há ainda mananciais próximos do limite, como Novo Angicos, Riachão e a lagoa de Extremoz. Mas Procópio alerta que esse cenário positivo não se estende aos reservatórios maiores do interior. “Grande parte dos pequenos, que duram seis meses, às vezes um ano, já tiveram uma boa recarga de água. Os grandes reservatórios, que dão suporte ao abastecimento das cidades e para irrigação, estão com uma recarga menor do que a gente queria”, declara.

Entre esses menores, a barragem de Oiticica é uma exceção por uma explicação lógica: recebe também águas da transposição do rio São Francisco.

Neste cenário, a melhora parcial não altera, por enquanto, o decreto estadual de situação de emergência por seca, em vigor desde março. Segundo a Coordenadoria Estadual de Proteção e Defesa Civil, a decisão leva em conta não apenas os níveis dos reservatórios ou os índices de chuva, mas também fatores como perdas na produção agropecuária e vulnerabilidade social.

O Decreto nº 35.416, publicado em 1º de abril, tem validade de 180 dias e abrange 166 cidades de todas as regiões potiguares. A única exceção é Natal. Com essa medida, o Estado pode realizar contratações emergenciais, com dispensa de licitação, para execução de obras e serviços destinados a minimizar os efeitos da seca.

O documento destaca que nove municípios estão em situação de colapso ou pré-colapso no abastecimento de água, atingindo cerca de 128 mil habitantes, e que cerca de 49,1% dos municípios do estado dependem atualmente do Programa Operação Carro-Pipa, coordenado pelo Governo Federal e executado pelo Exército Brasileiro, para garantir o abastecimento de água nas áreas rurais.

De acordo com a Defesa Civil, a recarga recente nos reservatórios “não remete a um cenário consolidado e seguro” que justifique mudanças no decreto. A análise segue em andamento, considerando inclusive o restante da quadra chuvosa, que se estende até maio. Essa situação de emergência também foi reconhecida pelo Governo Federal. Portaria do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional do último dia 22 de abril confirmou a situação em 63 cidades potiguares afetadas pela seca, com base no decreto estadual e relatórios técnicos.

Efeitos da estiagem persistem

Mesmo com a elevação dos volumes em alguns reservatórios, os impactos da estiagem ainda são sentidos de forma intensa no setor agropecuário. Para a Federação da Agricultura, Pecuária e Pesca do RN (Faern), o aumento das reservas é positivo, mas insuficiente para garantir segurança hídrica. Segundo o presidente da entidade, José Vieira, a distribuição desigual da água no estado impede uma recuperação homogênea.

“O percentual médio de armazenamento não reflete a disponibilidade real nas regiões. Muitos mananciais estratégicos seguem em níveis críticos, e os efeitos acumulados da estiagem ainda impactam o campo”, afirma.

Ele ressalta que a melhora nos grandes reservatórios ainda não chegou de forma efetiva ao produtor rural, especialmente pela limitação de infraestrutura e pela baixa capacidade de pequenos açudes que abastecem diretamente as comunidades. Por isso, o reconhecimento da situação de emergência pelos governos é um fator positivo. “Do ponto de vista do setor agropecuário, o decreto de emergência é uma medida coerente com a realidade do campo. Mesmo com a melhora recente dos indicadores, o risco hídrico permanece elevado, o que justifica a adoção de medidas emergenciais”, disse.

Na prática, a pecuária continua enfrentando dificuldades, com escassez de pastagens e aumento nos custos de alimentação. Já a agricultura segue dependente da regularidade das chuvas. “Nas regiões onde os reservatórios apresentam níveis mais elevados, há condições para uma safra mais estável e para uma pecuária menos pressionada. No entanto, o quadro geral do estado ainda é marcado por forte irregularidade na distribuição da água, o que impede projeções mais otimistas”, pontua.

A expectativa da Faern é de cautela para os próximos meses, com uma safra considerada moderada e desigual entre as regiões, visto que, apesar de haver sinais de recuperação, ainda não existem condições para uma retomada plena e homogênea da produção agropecuária no estado. “Diante disso, reforça-se a necessidade de manutenção das medidas emergenciais, avanço em obras estruturantes de abastecimento, ampliação do crédito rural e fortalecimento da assistência técnica, especialmente no manejo hídrico e forrageiro”, pontuou Vieira.

Fonte: Tribuna do Norte

Foto: Assecom RN