Estudo coloca o RN com a 5ª maior taxa de feminicídios no Nordeste
O Rio Grande do Norte registrou 6,1 casos de feminicídios consumados e tentados para cada 100 mil habitantes no ano de 2025. A taxa de incidência foi a 5ª maior entre os estados da região Nordeste, mas está abaixo da média nacional de 6,3 casos. Em números absolutos, 108 mulheres foram vítimas de feminicídio e tentativa do crime ao longo do último ano. Os dados são do Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025, elaborado pelo Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (Lesfem/UEL).
De acordo com o levantamento, a taxa de incidência de casos no Rio Grande do Norte é superada pelos estados de Alagoas (9,5), Piauí (9,0), Sergipe (7,08) e Maranhão (6,5). O estado potiguar teve, ainda, o menor aumento na taxa de incidência em todo o país, correspondente a 0,3, em comparação a 2024, ficando atrás de Rondônia (0,2). Apenas Piauí (-0,5), Rio de Janeiro (-0,6) e Paraná (-1,1) tiveram redução na incidência.
Em todo o país, foram registrados 6,9 mil casos consumados e tentados de feminicídio em 2025. O número representa um aumento de 34% em relação ao ano de 2024, quando o total foi de 5,1 mil vítimas. Foram 4,7 mil tentativas e 2,1 mil assassinatos, totalizando 5,89 mulheres mortas por dia no país. A maior parte dos crimes foi cometida com arma branca, aos fins de semana e por parceiros íntimos, atuais ou antigos das vítimas.
A professora Ilana Lemos de Paiva, do Observatório da População Infantojuvenil em Contextos de Violência (OBIJUV), da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), aponta que o cenário de casos no Estado acompanha o crescimento do crime de feminicídio no Brasil. Embora seja menor quando comparado a outros estados, em virtude da subnotificação de registros presente em todo o país, ela avalia que os dados merecem atenção.
“Há uma variação entre políticas públicas e mecanismos de proteção. Então, temos algumas diferenças entre os dados dos estados. Mas qualquer aumento de violência no sistema contra as mulheres é um indicador gravíssimo e alarmante. É preciso que as autoridades públicas coloquem como urgência nas agendas para que possamos interromper esse ciclo de intensificação”, destaca a docente.
Uma avaliação semelhante é repercutida pela Secretaria das Mulheres, da Juventude, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos (SEMJIDH/RN) em resposta à TRIBUNA DO NORTE. De acordo com a pasta, os dados precisam ser avaliados com seriedade, uma vez que cada crime “representa uma falha coletiva que precisa ser enfrentada com firmeza”. Aliado a isso, afirma, os números revelam que a violência de gênero permanece como um fenômeno estrutural, ao mesmo tempo em que há um aumento da busca pelos canais de denúncia e pelas medidas protetivas.
Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), o Rio Grande do Norte contabilizou 75 tentativas de feminicídio e 21 feminicídios em 2025, totalizando 96 tentativas e feminicídios consumados. O número é inferior ao registrado pelo Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025 em 12,5%.
A diferença pode ser explicada por diferenças metodológicas. De acordo com o relatório do Lesfem/UEL, o documento é desenvolvido a partir do Monitor de Feminicídios no Brasil (MFB), responsável pelo monitoramento diário de fontes não estatais que tratam sobre as mortes violentas intencionais de mulheres. As informações são combinadas, ainda, com registros oficiais sobre esses crimes.
“A pesquisa independente dos dados oficiais é muito importante porque busca outras fontes que dão uma dimensão maior do problema. A própria mídia faz esse papel importante de reverberar casos de violência para que a gente tenha uma visão real do que está acontecendo. Nos últimos meses, inclusive, a imprensa tem ajudado a divulgar casos com níveis de violência extremos”, explica Ilana Lemos de Paiva.
Rede de proteção e prevenção
A professora reconhece que, embora o Rio Grande do Norte tenha ampliado iniciativas com foco na proteção de mulheres, como o aumento de delegacias da mulher, ainda é preciso qualificar o debate e focar em ações com foco na superação da subnotificação. É o caso, por exemplo, da capacitação das autoridades policiais e judiciárias para que realizem a notificação adequada do crime de feminicídio.
“Também precisamos enfrentar a violência de gênero como algo estrutural no nosso país. Essa é uma questão importante, pois as redes sociais têm intensificado esse ódio às mulheres, com [proliferação de] discursos de misoginia. Para além do debate público, precisamos de políticas públicas realmente integradas”, completa Ilana Lemos de Paiva.
De acordo com a SEMJIDH, atualmente o Governo do Estado vem estruturando uma política que combina prevenção, proteção, responsabilização e produção de dados para enfrentamento ao feminicídio. Para este ano, a pasta vai focar na continuidade e expansão de ações estruturantes e preventivas.
Entre as iniciativas previstas, estão a interiorização da informação e dos serviços de proteção, por meio do programa Maria Vai às Cidades, com o Ônibus Lilás; o Programa Maria da Penha vai às Escolas (PROMAPE); a estruturação da Casa da Mulher Brasileira no RN; e a capacitação da rede de atendimento. Neste último caso, são realizados seminários intersetoriais envolvendo delegacias especializadas, Patrulha Maria da Penha, assistência social, saúde e sistema de justiça.
Números
- Taxa de incidência de feminicídio no Nordeste
- Bahia (3,6 em 2024 e 6,0 em 2025) – 2,4
- Pernambuco (3,3 em 2024 e 5,6 em 2025) – 2,3
- Maranhão (3,1 em 2024 e 6,5 em 2025) – 3,5
- Ceará (2,5 em 2024 e 3,7 em 2025) – 1,3
- Alagoas (5,9 em 2024 e 9,5 em 2025) – 3,6
- Piauí (9,5 em 2024 e 9,0 em 2025) – -0,5
- Paraíba (4,5 em 2024 e 5,4 em 2025) – 0,4
- Rio Grande do Norte (5,8 em 2024 e 6,1 em 2025) – 0,3
- Sergipe (2,8 em 2024 e 7,8 em 2025) – 5,0
Casos de violência contra a mulher podem ser denunciados por meio do Disque 180 (Central de Atendimento à Mulher).
Fonte: Tribuna do Norte
Foto: Divulgação
