Medo da toxina ciguatera afeta vendas de peixe durante a Quaresma no RN
Mesmo com a tradição católica de aumentar o consumo de peixe durante a Quaresma, comerciantes de Natal iniciam o período com expectativa de faturamento menor. A procura ainda é considerada baixa em relação aos anos anteriores, influenciada pelo medo da toxina ciguatera.
O comerciante Vanty Ribeiro, da Peixaria do Valério, afirmou que, no início da Quaresma de 2025, a procura por peixes já era maior nesta mesma época no Mercado do Peixe. “Está muito baixa a procura. Muito mais baixa que antes. Nos anos anteriores já tinha aumentado um pouco a demanda, a procura pelo pescado”, lamenta, ao observar os corredores vazios do espaço.
Conforme apurado pela Tribuna do Norte, o preço do quilo do peixe registrou, em média, aumento de 12% em 2026, em comparação com 2025. Os peixes mais procurados são cioba, badejo ou robalo.
“O aumento mesmo é para vir uma semana antes da Semana Santa. Sempre dá uma aumentada no volume das vendas. Mas a gente está com menor expectativa”, relata Vanty.
O comerciante atribui as expectativas mais baixas à queda nas vendas provocada pelo surto de ciguatera em 2025, uma intoxicação alimentar causada pela ingestão de peixes contaminados por ciguatoxinas, substâncias produzidas por microalgas presentes em ambientes recifais.
Segundo o comerciante, muitas pessoas ainda estão com medo de consumir pescado. “A questão da toxina, da ciguatera. Infelizmente, incidiu muito no pessoal que está procurando, está com medo de comer o pescado”, destaca.
A comerciante, que prefere se identificar como “Elione Neidinha”, trabalha com a venda de peixes no Mercado das Rocas e também sentiu a queda nas vendas, mantendo baixas expectativas para a Quaresma. “A gente está com essa dificuldade de vender, porque o pessoal está com medo de comer o pescado, mesmo com a religião”, explica.
Neidinha relata que, desde o início do ano, aguardava com ansiedade a chegada da Quaresma, mas, até o momento, não observou aumento nas vendas.
Ela também destaca que, tradicionalmente, o movimento melhora com a proximidade da Semana Santa, período em que os preços costumam subir. “Todo ano sempre sai um pouquinho a mais e a gente ganha, porque quando chega a Semana Santa, a gente aumenta um pouco o preço”, completa.
Thiago Moreira, comerciante da barraca Lenilson do Peixe, localizada em frente ao Mercado do Peixe, destaca que as vendas caíram de forma significativa neste período, em comparação com o ano passado. “Nesse período, a gente está vendo que a venda está saindo pouca. Mas a gente continua vendendo, né?”, relata.
Segundo ele, a expectativa é de melhora ao longo da Quaresma. “Na Quaresma já sai bem mais do que o normal. Este ano está incerto”, completa.
Tradição católica
Na tradição da Igreja Católica, a Quaresma é um período de preparação espiritual para a Páscoa, marcado por práticas como oração, caridade e penitência. Uma dessas práticas é a abstinência de carne, especialmente às sextas-feiras.
Girlene Maria da Silva, católica apostólica romana, afirma que segue a tradição da Quaresma e evita o consumo de carne às sextas-feiras. “Geralmente, a igreja manda que a gente coma peixe na sexta-feira. Hoje é segunda-feira, mas já estou hoje com vontade de comer, aí na sexta como de novo”, brinca.
Apesar de seguir a tradição da Quaresma, Girlene se antecipa e prepara um estoque de peixe em casa antes do período, para reduzir as compras durante a data: “Eu estoco o peixe porque daqui para lá vai aumentar o preço. Aí a gente já aproveita.”
Ivanete Martins, também católica, afirmou que espera consumir mais peixe durante a Quaresma. “Por causa da Quaresma consumo mais. Não deixo de comer carne; hoje, por exemplo, comprei só porque gosto, mas na Quaresma a gente consome mais”, disse, enquanto comprava peixe-serra.
Fonte: Tribuna do Norte
Foto: Magnus Nascimento
