Demanda por crédito cresce 16%em 12 meses no RN, aponta Serasa
A procura por crédito no Rio Grande do Norte cresceu 16% nos 12 meses encerrados em abril de 2026, segundo o Indicador de Demanda dos Consumidores por Crédito da Serasa Experian. O resultado ficou acima da média nacional, que registrou alta de 15,2% no mesmo período. Especialistas avaliam que o avanço está mais relacionado à necessidade de reorganização financeira das famílias do que ao aumento do consumo.
O aumento da demanda por crédito foi observado em todas as unidades da federação. No Nordeste, porém, o Rio Grande do Norte apresentou o terceiro menor crescimento do indicador, ficando à frente apenas do Maranhão (15,1%) e do Ceará (11,5%).
Para a economista-chefe da Serasa Experian, Camila Abdelmalack, o crescimento de 16% na demanda por crédito no RN está inserido em um movimento observado em todo o país. Segundo ela, a forte participação dos setores de comércio e serviços no estado torna a atividade econômica mais sensível às oscilações de renda e consumo das famílias.
“A economia potiguar possui forte participação dos setores de comércio e serviços, atividades que são diretamente influenciadas pela dinâmica de renda e consumo das famílias. Em um ambiente marcado por juros elevados, inflação ainda pressionando parte dos gastos essenciais e maior comprometimento da renda, o crédito passa a desempenhar um papel ainda mais relevante no planejamento financeiro dos consumidores”, afirma.
Camila Abdelmalack ressalta que o aumento da procura por crédito não está necessariamente ligado à ampliação do consumo. De acordo com ela, em muitos casos os consumidores recorrem aos empréstimos para reorganizar as finanças, administrar o orçamento doméstico e recompor a liquidez diante das dificuldades financeiras.
No ranking nacional, o estado ocupa a 11ª posição entre os menores avanços registrados. Os maiores crescimentos na procura por crédito foram observados em Roraima (22,7%), Tocantins (22,2%) e Alagoas (20,9%). Já os menores índices foram registrados no Distrito Federal (10%), Santa Catarina (11%) e Ceará (11,5%).
A pesquisa também aponta que a maior expansão na demanda por crédito ocorreu entre consumidores com renda de um a dois salários mínimos, faixa que registrou crescimento de 28% nos últimos 12 meses. Em seguida aparecem os consumidores com renda de até um salário mínimo (18,8%), de cinco a dez salários mínimos (17,8%) e acima de dez salários mínimos (17%).
O economista Helder Cavalcanti reforça que os dados da Serasa indicam que o aumento da procura por crédito está mais associado às dificuldades financeiras das famílias. “Quando o crédito cresce de forma mais intensa entre quem recebe até dois salários mínimos, normalmente estamos diante de uma demanda defensiva, voltada para pagamento de contas, reorganização das finanças e manutenção do padrão de vida”, afirma.
Segundo a Serasa Experian, o avanço da procura por crédito entre as famílias de menor renda está relacionado tanto ao consumo quanto à necessidade de reorganizar o orçamento doméstico e equilibrar as finanças diante do maior comprometimento da renda.
A autônoma Ana Cláudia Alexandre fez um empréstimo no bairro Alecrim para fazer compras de itens para casa. Ela costuma pedir créditos como forma de complementar a renda. “É necessidade mesmo. Quando a gente precisa comprar alguma coisa para dentro de casa ou até pagar as contas, porque o salário que a gente recebe hoje em dia não dá para quase nada”, revela.
O lavador de carros Henrique da Silva também costuma pedir empréstimo para completar a renda. “É ruim depois que fica com dívida, se não souber administrar, mas no desespero a gente pede empréstimo mesmo. Pra comprar coisa básica”, disse.
Crédito exige uso consciente para evitar problemas
Segundo Helder Cavalcanti, muitas famílias já comprometem uma parcela significativa da renda com dívidas e podem se tornar mais vulneráveis diante de imprevistos, como desemprego ou redução da renda.
“O desafio não é apenas ampliar o acesso ao crédito, mas ampliar o acesso ao crédito consciente. Sem orientação adequada, uma solução temporária pode acabar se transformando em um problema permanente”, destaca.
O economista recomenda que os consumidores avaliem cuidadosamente a necessidade de contratar empréstimos. Antes de recorrer ao crédito, é importante verificar se a renda futura será suficiente para arcar com as parcelas e se não existem alternativas mais baratas para resolver o problema financeiro.
“O consumidor muitas vezes passa a enxergar o crédito como uma extensão da própria renda quando percebe que o salário já não acompanha o aumento das despesas. Isso aumenta a procura por recursos financeiros, mas também eleva os riscos futuros”, explica.
Segundo ele, a recuperação gradual da renda das famílias, a manutenção de programas de transferência de renda e a melhora parcial do mercado de trabalho tendem a estimular a procura por empréstimos. Além disso, muitas famílias ainda buscam recompor o orçamento doméstico após anos de pressão inflacionária.
Ele também alerta que o uso recorrente de empréstimos para custear despesas básicas, como alimentação, contas domésticas e gastos do dia a dia, costuma indicar um desequilíbrio estrutural no orçamento familiar. “O crédito deve ser uma ferramenta estratégica, e não um mecanismo permanente de sobrevivência financeira”, orienta.
Fonte: Tribuna do Norte
Foto: Alex Régis
